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A propósito do Congresso da LLLB

A chegada do congresso da LLLB (os leigos luteranos) sugere uma reflexão sobre o termo “leigos”. Segundo a minha pesquisa, este termo “leigo” surgiu na Idade Média e designava, originalmente, um empregado de um convento. Quem não era monge era leigo. Assim, a palavra veio a significar a pessoa que não recebeu ordens sacras, que não foi ordenada, que não é padre ou pastor. Entre nós, designa os homens da igreja que não são pastores. A liga de leigos é a liga dos homens da igreja. Claro, leigo pode também designar alguém que tem pouca familiaridade com um assunto, mas isto é outra história.

Em nossas edições da Bíblia (Almeida e NTLH), não aparece a palavra leigo. Consultei uma tradução feita em Portugal, chamada A Bíblia para Todos (que é uma tradução do tipo Linguagem de Hoje), e ali aparece três vezes o termo “leigos”. São passagens em que se contrapõem os sacerdotes e o povo. Se quiser verificar, essas passagens são 1Crônicas 9.2, Isaías 24.2 e Jeremias 19.1. Na nossa Bíblia diz “povo”. Mas poderia dizer “leigos”.

Este uso do termo leigo na Bíblia feita lá em Portugal é interessante, pois mostra que os leigos são aqueles que não são sacerdotes. Disso se conclui que, em se tratando de religião, só existem leigos onde existem sacerdotes. Se uma religião ou igreja não tem sacerdotes, ela não tem leigos. Dizendo de outra maneira: esse discurso sobre leigos é algo típico da teologia católica. Eles têm uma “teologia do laicato”. Nada disso existe na igreja luterana ou, num sentido mais amplo, nas igrejas evangélicas. A igreja católica se questiona sobre o papel dos leigos na igreja; os evangélicos não têm esse problema. Por que não temos este problema? Porque não temos sacerdotes. E se não temos sacerdotes, não temos leigos. Minto: temos sacerdotes, sim. Mas não como uma classe ou um grupo especial. Sacerdotes são todos os cristãos. “Vós sois sacerdócio real”, escreve Pedro, dirigindo-se à igreja como um todo.

À luz disso, soa estranha uma declaração do papa, em recente visita ao Brasil. Ele disse aos jovens, numa afirmação que nos parece bem normal, que a igreja precisa deles. Mas essa afirmação deveria soar estranha aos ouvidos de um evangélico. Por quê? Porque, como pode a igreja precisar dos jovens se os jovens são igreja? Mas aquela afirmação faz sentido do ponto de vista católico. A igreja católica é a hierarquia e os “leigos” são como que os clientes. Uma missa pode ser realizada sem a presença de ninguém mais que o padre; um culto só se realiza se tem pessoas presentes para ouvir a pregação e receber a santa ceia. Alguém (que é da igreja católica) explicou a diferença assim: se um casal evangélico vai a uma ilha onde não existem cristãos, prega o evangelho e depois de cinco anos alguém vai visitá-los e encontra um grupo de pessoas em oração, dirá que lá existe uma igreja. Se aquele casal de missionários for da igreja católica e acontecer o mesmo, só se poderá dizer que lá existe igreja se um padre for lá e rezar uma missa. 

Dizemos, nós luteranos, que as marcas da igreja são a palavra de Deus e a celebração dos sacramentos (batismo e santa ceia). Não é assim que às vezes pensamos que o pastor também é uma das marcas da igreja? Enquanto um pastor não puder se fazer presente, não existe igreja em determinado lugar, pensamos nós. Se o pastor não puder estar, não haverá culto. Por que não? Não são os leigos (ou as servas) que são um “adendo” à igreja. Eles são a igreja. Os pastores é que são um “adendo” à igreja, como dom de Cristo à igreja (Ef 4.11,12). Uma reunião só de pastores pode ser uma reunião da igreja. Mas que fica esquisito, fica. Por isso, na igreja luterana, é tradição que na Convenção Nacional cada igreja ou congregação mande o pastor e um representante chamado leigo. Na verdade, deveria ser o contrário: cada igreja manda um representante e também o pastor. Temos, com certeza, um longo caminho a percorrer para superar o que chamamos de “clericalismo”, que é essa noção de que a igreja são os pastores. Os pastores são um presente especial e muito precioso que Cristo deu à sua igreja, em função da pregação e da administração dos sacramentos. Mas a igreja somos todos nós, os “cordeirinhos que ouvem a voz do bom Pastor”.

Dr. Vilson Scholz


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